Por Marcos Gouvea
Este artigo continua o o anterior, no qual avaliamos o processo de profunda transformação que ocorre no Franchising global por conta das mudanças no cenário de negócios, com impactos significativos no crescimento do setor no Brasil.
Inicialmente havíamos destacado o impacto do crescimento dos países emergentes que estimula a expansão mais rápida e com menor risco através do Franchising nesses mercados. A redução da participação das economias mais ricas, que em 1990 representavam aproximadamente 75% do PIB global e agora em 2010 detiveram 66%, gerou um interesse muito maior pela expansão de negócios em mercados emergentes, menos competitivos, concentrados e com oportunidades de crescimento maior por conta de populações usualmente mais jovens e mais abertas ao novo. Como é o caso do próprio Brasil.
Para essa realidade o Franchising tem sido um caminho oportuno de entrada nesses mercados que exigem habitualmente uma elevada dose de adaptação dos modelos operados em mercados mais maduros e podem acelerar o processo de expansão e aproveitamento dessas oportunidades.
Mencionamos também como em economias mais maduras foram criadas regulamentações visando a proteção de pequenos e médios operadores, o que estimulou o uso do Franchising como alternativa para continuidade da expansão de corporações de varejo e serviços.
E também foi mencionado como o aumento da competitividade no cenário global impulsionou marcas e fornecedores a criar canais exclusivos de relacionamento e vendas com os consumidores, sendo que na maioria dos casos, tem sido usada a opção do Franchising pela velocidade de expansão, redução de riscos e diluição dos investimentos.
Outro fator que tem contribuído para essa valorização do Franchising é a redescoberta dessa alternativa de expansão e diversificação de negócios pelas corporações de varejo e serviços, como forma de incorporar novos negócios, acelerar o processo de expansão e, em alguns mercados, viabilizar a continuidade do crescimento, apesar das regulamentações restritivas.
Assim o Carrefour em diversos países, incluindo o Brasil com a rede Dia%, tem usado essa opção, para converter operadores independentes em franqueados. Na Espanha são três formatos distintos que serão oferecidos a operadores independentes para se integrarem ao negócio. O Casino na França também usa a alternativa do Franchising em sua rede Leader Price.
Nos Estados Unidos, quando a Sears, ampliando seu portfólio de serviços, entrou no negócio de limpeza de carpetes e outros serviços domiciliares, foi através da franquia que formatou o novo negócio, sendo oferecido com o aval da marca Sears porém com a experiência e os serviços de independentes.
No Brasil, o grupo Pão de Açúcar tem no Franchising uma de suas alternativas para expansão dos formatos de conveniência.
Ainda aqui no país, outro fator motivador dessa aceleração é o crescimento de participação da chamada classe média emergente, os segmentos B2C da pirâmide sócio-econômica, que em 2003 representava 50% da população brasileira e agora em 2010 cresceu sua participação para 68,3%. Um aumento de participação muito rápido e de certa forma não previsto na dimensão e na escala em que ocorreu. O Franchising se tornou, nesse aspecto, uma interessante forma de expansão rápida, em escala nacional, com menor comprometimento de recursos próprios e acelerando o atendimento desses novos mercados.
A rede Cacau Show, que comemorou recentemente as suas mil lojas franqueadas, é um excelente exemplo de quem soube aproveitar o vento a favor e cresceu acelerado tirando partido do momento de mercado.
Existe ainda no caso brasileiro outro fator que contribui para que o Franchising seja olhado com outro nível de interesse neste momento. O apagão de talentos que está configurado no país, com o baixo nível de desemprego criando dificuldades para atração de novos profissionais, inflacionando salários e dificultando a retenção dos melhores, pode ter no Franchising uma opção para converter independentes em afiliados e franqueados de redes, minorando esse problema.
No processo de globalização do varejo a partir do Brasil, tem sido o Franchising quem tem mostrado mais disposição, visão e ousadia para conciliar a expansão no mercado local com a internacionalização de negócios.
Enquanto as corporações brasileiras de varejo colocam toda sua atenção na expansão no mercado interno, pela incorporação das novas classes emergentes, com suas características próprias de consumo, e tentam acelerar a cobertura do potencial ampliado com novos formatos, bandeiras e negócios, onde o risco é menor, por ser mais conhecido, o Franchising vai além, faz tudo isso e também se expande internacionalmente.
Marcas e redes como Boticário, Via Uno, Spoleto, Bob’s, Localiza, Azaléia e Fisk, dentre outras, usando a flexibilidade e adaptabilidade que o conceito de Franchising propicia, estão também acelerando sua expansão internacional, numa ação que conta com a visão e competência da Associação Brasileira de Franchising (ABF), que, com o apoio da Apex e do governo, está criando condições para esse foco concomitante na expansão global.
São algumas dessas razões, num desejável círculo virtuoso, que estimulam a participação e os investimentos de bancos e fundos, como Bradesco; Itaú; BTG-Pactual, que recentemente adquiriu a Farmais; Advent, com suas operações em food service; e Carlyle, com aquisições da CVC e de varejo integrado com indústria na área de roupa íntima, que estão também incorporando novos recursos, competência, gestão, ambição, visão e profissionalização, apoiando a expansão local e global do Franchising no Brasil, permitindo que o setor tenha se tornado uma referência mundial por seu desenvolvimento recente.
Para conferir a primeira parte do artigo, clique aqui!
Marcos Gouvêa de Souza, diretor geral da GS&MD – Gouvêa de Souza
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