Por Marcos Gouvêia de Souza
Os dados da movimentação de contratação de pessoas divulgados pelo Caged do Ministério do Trabalho mostram que em maio houve uma redução de 15% em relação ao mesmo período do ano passado, puxada pelo setor industrial, com uma queda de 32%.
No acumulado dos cinco primeiros meses de 2011, teria havido uma redução de 88,5 mil vagas em relação ano anterior. No mundo real essa contração não se reflete em mais facilidade para contratação e retenção de funcionários. Muito pelo contrário.
As dificuldades para recrutar e reter bons profissionais neste momento no Brasil se tornaram o maior desafio para empresas de todos os setores.
Os diferentes e abrangentes planos de expansão de atividades das empresas e a conjugação de uma economia que segue aquecida (ainda que um pouco menos que no passado recente); somados ao baixo nível de desemprego, que aproxima o país de uma situação próxima ao pleno emprego; e à continuidade de crescimento consistente para os próximos anos, ainda que em patamar inferior ao dos anos passados, tornaram a gestão de pessoas o mais complexo problema a ser enfrentado.
Quaisquer planos mais ambiciosos de expansão esbarram na dificuldade em encontrar e, principalmente, reter as pessoas certas para viabilizar novos projetos. Ou até mesmo para manter o que já vinha sendo feito.
O problema está mais concentrado nas regiões Sul e Sudeste do país, mas atinge indistintamente todo o mercado e se tornou tema obrigatório de qualquer discussão de natureza estratégica ou operacional.
Alguns setores industriais têm tido um pouco menos de dificuldade, por conta da redução da demanda interna e externa. Mas, em compensação, os setores de serviços, construção e comércio têm mostrado mais problemas, tendo como consequência um aumento real de custo de pessoal, com a necessidade de revisão das políticas salariais e de benefícios para atrair e reter os melhores profissionais.
É preciso reconhecer que “nunca antes neste país” a atuação dos sindicatos em busca de melhorias de salários foi tão favorecida como no momento atual, pela simples aceitação das regras de mercado envolvendo oferta e demanda de profissionais. Muitos anos de discursos e pregações por melhorias estão sendo atropelados pela realidade da falta de gente preparada para suportar a expansão de negócios.
Na linha de alternativas para algumas funções e especializações, já estão sendo trabalhados programas de recrutamento e repatriação de brasileiros que estão no exterior, assim como recrutamento em mercados mais debilitados economicamente, como Espanha, Portugal, Argentina ou até mesmo os Estados Unidos, onde o custo de alguns profissionais é mais baixo e a disponibilidade maior do que o que temos agora no Brasil. Pelo menos por algum tempo.
O lado perverso, além da falta de profissionais, é a aceleração do turnover de pessoal; o aumento de custos de salários e encargos; a predisposição dos funcionários para aventuras profissionais por algum aumento de salários; e o aumento dos investimentos em recrutamento, seleção e treinamento. O lado positivo é uma natural excitação econômica e a melhoria do poder aquisitivo.
Mas de prático fica o desafio de rever estratégias, políticas e ações de recrutamento, seleção e treinamento, bem como processos e tecnologia que possam de alguma forma reduzir essa dependência. Nesse contexto, para buscar minorar o problema, deveriam ser também revistas algumas posturas adotadas no passado que estimulavam a geração de empregos, tais como proibição do autosserviço em muitas atividades.
O resultado de tudo isso é uma saudável percepção da evolução do país e a necessidade de muito mais investimento em capacitação, desenvolvimento e formação de gente para não comprometer a continuidade do crescimento.
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